Encarnação
Enquanto lê essa crônica pode ouvir
de Tim Rescala, interpretada por Elba Ramalho
Dona Encarnação (Selma Egrei) dançou em seu quarto como uma menina que dança na beira do abismo, como diria Nietzsche. O abismo de dormir eternamente. Encarnação foi uma das grandes
personagens da novela Velho Chico e da história da teledramaturgia brasileira por causa da complexidade com que a atuação de Selma Egrei, a direção de Luiz Fernando Carvalho e o texto de Bruno
Luperi levaram a personagem a ter. Uma mulher que começou sendo
odiada por todos por ter temperamento irredutível e pela mão de ferro com que conduziu a família Sá Ribeiro desde quando se casou com Jacinto (Tarcísio
Meira) e quando foi determinante na escolha do filho Afrânio (Rodrigo Santoro/ Antônio Fagundes) em continuar na fazenda no lugar do pai. Em
seus 100 anos de existência viveu a maior parte da vida sendo temida dentro de casa e na cidade de Grotas. Já na proximidade
da morte, algo se rompeu nessa estrutura de aço, a personagem que poderia ter passado simplesmente para a história como uma personagem má demonstrou fraquezas nas sutilezas, nos olhares, nas expressões. Seus medos, suas tristezas, seus arrependimentos foram emergindo desse rio frio e terminou por ir à procura de perdão, de paz, ainda que de forma altiva. A última dança é a liberdade absoluta de uma vida controlada pelo medo de não ser temida: pois dançar é se permitir a vida, se permitir
não saber para onde o corpo vai, é ter fé como nos disse Nietzsche. A neta Tereza (Camila Pitanga) expressou no velório o que
é a morte “Terminou. A vida é um
sopro”. Um sopro que pode durar 10 anos, 15 anos, 100 anos, não importa o tempo. Será sempre um sopro que pode demorar mais para uns, porém findará para todos. E
Iolanda (Christiane Torloni) ao se decidir deixar Afrânio disse a ele: Levo comigo
as lembranças.
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